É. Não tem jeito.Por mais que a gente tenata ficar no aqui-agora, as lembranças vêm à tona.Às vezes de forma calma, leve, uma por vez.Outras vezes, chegam misturadas, atabalhoadas, avassaladoras.Mas chega, sempre.Tenho aprendido a lidar com elas, a recebêa-las bem,a convidá-las até a ficarem um pouquinho mais.E quando percebo que já estão tomando gosto pelo presente, que já não querem mais retornar de inde vieram, aí eu me apronto, coloco uma roupa nova, me olho no espelho e me belisco de leve, é claro: Chega! Xô, passado! O "lá fora me espera.O Sol é um convite, ou a chuva também o é, ou então a Lua prateada no céu cor de anil, ou até mesmo a música do momento que ouço da vizinha apaixonada e que me faz voltar ao meu presente.
Mas aí a viagem já aconteceu.E volto aos tempos de menina, quando a cada fim de ano a mesa ficava pequena para receber os familiares e amigos de última hora.Era sempre a mesma coisa.Dezembro se anunciava e a preocupação da mamãe era como se virar para preparar a ceia de Natal.A pobreza era muita, o dinheiro inexistia, mas a vontade de estar com as pessoas queridas, o sonho da mesa farta, ah! isso nunca mudou.
A gente ia economizando dentro do improvável.Meus irmãos mais velhos que já trabalhavam, faziam de tudo para que do dinheirinho do décimo terceiro algo pudesse sobrar para a contribuição para a ceia.E sobrava.E e minha irmã ainda meninas, fazíamos artesanato: sapatinhos de tricô e crochê, bolsinhas de fiação e outras peças artesanais que conseguíamos vender a tempo suficiente para amealhar alguns preciosos trocados para a caixinha natalina.
E o milagre da multiplicação do pães se repetia.Foi assim durante toda a nossa meninice, na época das vacas magras( ou macérrimas).E para completar o milagre, minha mão, séria e pouco afeita a lamentações, tinha um singelo vício, para que a sua santidade não ficasse às claras: ela adorava o jogo-de-bicho.No seu jeitinho mineiro de ser, fazia sua fezinha diariamente, bem caladinha, sem nenhum alarde.E por incrível que possa parecer, às vésperas do Natal. a gente recebia dela uma lista de compras imensa, com tudo aquilo que precisaria para a ceia.E a gente nem ousava questionar de onde veio tanto dinheiro.Mas a gente já sabia: o passe dela ( do jogo) tinha dada na cabeça.Ela acertara a milhar todinha.
E aí a mesa se tornava farta , colorida e saborosa.Peru, carne assada, frango, maionese, macarronada, arroz de forno, salada, farofa e o famoso tutu à mineira, exclusividade da mamãe.E é claro que na sobremesa não faltavam as deliciosas rabanadas , de leite e de vinho, outra especialidade de nossa mãe.
Foram anos em que se repetiu esse ritual tão maravilhosamente comandado por nossa amada genitora.A mesa se tornava pequena na hora da ceia.Além dos familiares, a vizinhança ia chegando aos poucos, depois da missa do galo, e pasavam por nossa casa na certeza de serem bem-recebidos, eram.
Hoje percebo que não é mais tão comum essa hospitalidade despojada de qualquer outro interesse a não ser o abraço fraterno, o encontro amigo, o desejo de compartilhar bons momentos.Sinto uma nostalgia no ar.As pessoas mais ricas não sabem o que fazer com o dinheiro.E o hábito de reunir as pessoas queridas em volta de uma farta mesa para um almoço, um jantar ou uma ceia natalina tem sido preterido em nome da falta de tempo ou mesmo de uma economia sem sentido.
Mas o que aprendi na humildade da minha família foi definitivo em minha vida. Cada vez que junto as pessoas que amo ao meu redor, estou repetindo o ritual aprendido lá atrás, na minha infância.E se naquela época, a minha mãe, com a sua bondade, com a ajuda divina( mesmo que numa versão ligeiramente profana do jogo-de-bicho) conseguia fazer a multiplicação dos pães, hoje tenho a alegria de poder oferecer sempre uma mesa deliciosa, variada, onde sempre cabe mais um.





